
BOM DESEMPENHO DA ECONOMIA, CRESCIMENTO DO PÚBLICO CONSUMIDOR, A NECESSIDADE DE OS CLUBES BUSCAREM NOVAS RECEITAS E A ORGANIZAÇÃO DA COPA DO MUNDO EM 2014 SÃO ALGUNS DOS FATORES QUE PROMETEM AQUECER O MERCADO VAREJISTA LIGADOAO ESPORTE MAIS POPULAR DO PAÍS
por Glauco di Pierre
A Fifa já criticou o Brasil pelo atraso nos preparativos para a Copa do Mundo de 2014. O atraso no início das obras é notório e São Paulo, principal cidade e centro econômico do País, ainda nem sabe onde receberá os jogos do torneio. Nas 12 sedes escolhidas pela CBF, a transformação de estádios em arenas com o padrão de Copa nem começou, e as garantias financeiras para os projetos de reforma ainda estão só no papel. Todo esse cenário assusta os cartolas da Fifa, mas nem de longe intimida as grandes marcas ligadas ao futebol e empresas de outros setores que se beneficiam do esporte e enxergam no Brasil um grande potencial de mercado. A expectativa é que, até 2014, o Brasil literalmente se transforme no país do futebol não só dentro de campo, mas em todas as atividades conexas ao esporte, inclusive no varejo esportivo.

Esse otimismo é reforçado pelos números. Apenas nos primeiros quinze dias de junho, mês da Copa do Mundo na África, o número de consultas ao Serviço de Proteção ao Crédito (SCPC), que indicam o volume de vendas a prazo havia crescido 8,8% ante o mesmo período de maio. Em comparação ao mesmo período de 2009, esse aumento foi ainda mais expressivo: 10,7%. A perspectiva para os próximos quatro anos é de que, com a estabilidade da economia e o crescimento das classes C e D, que cada vez mais têm acesso ao consumo, haja uma solidificação das vendas relacionadas a todos os esportes - mas principalmente o futebol -, tendo em vista não só a Copa do Mundo e os investimentos que ela trará, mas também a realização das Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro.
E quando o assunto é só futebol, os números do Brasil também são bem favoráveis. Aqui no país, esse esporte atingiu no ano passado receita recorde de R$ 1,9 bilhão, o que significou uma evolução de aproximadamente 12% em relação ao ano anterior (R$ 1,7 bilhão) e de 140% se a comparação for com o ano de 2003, quando os clubes brasileiros passaram a adotar novos modelos de negócios e produziram R$ 805 milhões em recursos. Segundo o levantamento da consultoria Crowe Horwath RCS, entre licenciamentos de materiais e marcas, transações de jogadores, venda de imagens e tudo mais ligado ao futebol, a modalidade no Brasil deve movimentar R$ 2 bilhões até o fim de 2010 e pode ultrapassar a casa dos R$ 3 bilhões em 2014.

Dentro deste cenário, os principais clubes brasileiros se preparam para pegar carona na onda de crescimento. Tudo isso sob o olhar de departamentos de marketing, fornecedores de materiais esportivos e ainda de rede varejistas, que certamente apostarão na fidelização do público. Afinal de contas, foi-se o tempo em que a principal fonte de renda dos clubes era a venda de jogadores ao exterior (leia mais no texto ao lado). Hoje em dia, com a profissionalização dos dirigentes dos principais times, existem outras maneiras de se ganhar dinheiro. Entre elas está a venda de produtos licenciados.
Camisetas oficiais, agasalhos, chuteiras, bonés, chaveiros, bolas, copos e até lingerie e peças de moda íntima entraram no catálogo oficial oferecioferecido pelos clubes. A venda de camisetas oficiais tem aumentado de maneira importante a receita para os clubes e, com isso, novos investimentos devem ser feitos nessa área nos próximos anos. Em 2009, por exemplo, o São Paulo Futebol Clube faturou o equivalente a 10% de toda a sua receita a partir da venda de produtos licenciados nas lojas Sao Store, criadas pelo próprio time em parceria com a Reebok . A rede já tem unidades nos shoppings Pátio Paulista, Center Norte, Ibirapuera e na rua Oscar Freire. Mas o plano do clube do Morumbi é de abrir mais três unidades ainda este ano no interior do Estado, e quatro fora de São Paulo até 2011.
Outro caso notório aconteceu em maio, quando o Palmeiras, mesmo atravessando um período difícil dentro dos gramados, entrou no grupo dos cinco clubes de futebol que mais vendem material esportivo da Adidas no mundo. Na frente do clube paulista estão apenas os gigantes Real Madrid, Milan, Chelsea e Bayer de Munique. Em razão do bom desempenho, a Adidas já propôs uma acordo para renovação do contrato para fornecimento de material para o clube até 2015. O patrocínio atual, válido de 2009 a 2011, rende aos cofres do Palmeiras R$ 9 milhões por ano.
`Os clubes sempre foram muito ruins para divulgar suas marcas e conseguir dinheiro. Com a parceria da iniciativa privada, de varejistas com a mente mais aberta, isso mudou para melhor`, avalia Claudinei Santos, coordenador e professor do núcleo de estudos de negócios do esporte da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), e que também é diretor de projetos da pós-graduação da instituição. Santos ressalta que a situação financeira estável do Brasil tem ajudado, e muito, na hora do varejo aproveitar a febre do futebol. `Hoje, todas as classes gostam de futebol e todas as classes têm acesso aos produtos. Como marcas,clubes e seleções são muito fortes. Com a excitação pela Copa de 2014, as vendas serão ainda mais alavancadas`, diz o especialista, ao lembrar que esse mercado há anos já vive uma tendência de alta.
Com esse aumento pela demanda de materiais esportivos, as fabricantes já procuram novas formas de se solidificar no mercado. Na Adidas, a perspectiva é dobrar o tamanho do negócio de produtos voltados à prática do futebol no País ainda neste ano. Para essa estratégia de crescimento manter o ritmo atual, será fundamental destacar sua presença até 2014. Manter contratos de fornecimento de material esportivo no País com grandes clubes, como o Palmeiras e o Fluminense, faz parte dessa estratégia. A cada Copa do Mundo a comercialização de produtos relacionados ao futebol aumenta entre 20% e 30%, pelas projeções da Adidas. Em 2006, a companhia faturou R$ 1,2 bilhão só com o futebol. Vendeu 15 milhões de bolas e mais de 500 mil uniformes apenas da seleção alemã, que segue sendo uma das 12 que a marca patrocina este ano.
A iniciativa da Adidas é também uma forma de não deixar concorrentes que estão em boa posição estratégica no mercado brasileiro dominarem por completo o espaço. A Nike, por exemplo, é, desde 1997, a patrocinadora oficial da Seleção e, além disso, tem contratos com Flamengo e Corinthians, donos das duas maiores torcidas do Brasil. Segundo Luís Paulo Rosemberg, vice-presidente de marketing do Corinthians, apenas neste ano, em que o clube paulista comemora seu centenário, a expectativa é de vender mais de 1,5 milhão de camisas oficiais.
BOAS PERSPECTIVAS AO VAREJO
O interesse de grandes marcas de material esportivo em investir no Brasil e a especialização cada vez maior de empresários neste setor abrem espaço para que lojas de clubes ou multimarcas ligadas ao futebol aumentem sua participação no varejo. De acordo com o professor Claudinei Santos, o setor tem condições de explorar melhor o mercado, criando espaços e lojas para expor mais as marcas e oferecê-las ao torcedor. `Em relação ao que se pode ver na Espanha, França e Itália, ainda estamos engatinhando. O Real Madrid é dono de um minishopping de três andares. O clube ganha muito dinheiro com a venda de todo tipo de material ligado ao Real, de camisas oficiais a chaveiros, tudo.`

Santos avalia ainda outro fator que, segundo ele, favorece a expansão das lojas temáticas de futebol: o maior controle sobre a pirataria. Nesse caso, o curioso é que o foco da ação não foi a fiscalização ou a repressão aos ambulantes que comercializam cópias das camisetas de times. A estratégia usada foi a parceria entre fabricantes dos mais variados itens de consumo com os clubes. Em linhas gerais, a ideia é vender produtos de valor agregado, mais difíceis de serem pirateados e que garantem uma maior receita.
`Trata-se de uma qualificação maior do mercado, que permite o investimento dos empresários na expansão de suas lojas.`
Um dos casos conhecidos que comprovam a teoria do professor da ESPM é o da rede Times Mania, dedicada a produtos do São Paulo, Corinthians, Palmeiras e Santos. Atualmente, são quatro lojas espalhadas pela Baixada Santista, São Paulo e Campos do Jordão. Mas o plano é que a rede chegue e a dez revendas até 2014.
Ainda pouco explorado nesse setor de mercado, o modelo de franquias também é visto pelos especialistas como um formato que pode colaborar para o alastramento das lojas temáticas de futebol no varejo, principalmente nos shopping centers. Isso porque as franquias ajudam a descentralizar as operações e são instrumentos interessantes para se diferenciar as características regionais de cada público.
NOVAS RECEITAS E A CONCORRÊNCIA DA INTERNET
os demonstrativos financeiros dos quatro grandes clubes de São paulo - Corinthians, palmeiras, Santos e São paulo - indicam que no ano passado apenas 10% das receitas obtidas pelos times vieram da transferência de atletas. o porcentual é inferior ao registrado em 2008, quando a venda de jogadores somava 24% das receitas e ainda menor em relação a 2007, quando as transferências representavam 37% do total arrecadado.esses números significam que a retração da economia nos mercados compradores, como a europa, obrigou os clubes a buscarem fontes alternativas de renda.
`indiscutivelmente, o mercado evoluiu em receitas marginais, o que falta é ela se converter em uma receita mais ampla`, disse Amir Somoggi, da consultoria Crowe horwath rCS, em recente entrevista ao Jornal da tarde. de acordo com o especialista, os clubes podem oferecer mais aos torcedores, como por exemplo, lojas oficiais para a venda de produtos licenciados. `você gera uma série de receitas, com bares e restaurantes, por exemplo. os clubes precisam entender e dominar essas receitas.`
o professor Claudinei Santos, coordenador do núcleo de estudos de negócios do esporte da eSpm, é otimista com a criação de novas lojas especializadas em futebol; mas faz um alerta: `todo o varejo brasileiro está aquecido. o setor especializado em futebol também, mas tudo tem um limite`, avalia. para ele, a rentabilidade de uma loja pode ser boa, mas o empresário precisa ter em mente os problemas que irá enfrentar - e que na opinião dele, não serão solucionados em pouco tempo. `mesmo coma estratégia dos clubes e fabricantes de materiais para reduzir o impacto da pirataria no Brasil, esse fenômeno ainda representa uma grave e desleal concorrência.`
outro ponto lembrado por Santos diz respeito às lojas virtuais, cada vez mais consolidadas no mercado brasileiro. para o professor, `a internet é uma das principais fontes de venda desse mercado e, as lojas físicas estão aperfeiçoando seu processo de vendas on-line, com a vantagem de reduzir despesas e custos de uma operação em um ponto de venda fixo, seja ele na rua ou em um shopping.`


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